26/04/2014 - Entrevistas

Entrevista exclusiva com o árbitro Vinicius Gonçalves Dias Araújo


Por: Marçal - assessoria de comunicação


 Vinícius Gonçalves Dias Araújo

Vinícius Gonçalves Dias Araújo

Um dos destaques do Campeonato Paulista de 2014, juiz de futebol bate um papo com a Opinião Vale sobre sua participação no Paulistão, arbitragem brasileira e Copa do Mundo

 

Filho de Guaratinguetá, Vinícius Gonçalves Dias Araújo, 35, foi destaque entre os árbitros de futebol do Campeonato Paulista em 2014. Ele foi considerado pela Federação Paulista de Futebol o quarto melhor juiz deste Paulistão. Formado em Educação Física, também já foi jogador profissional, mas deixou a carreira para optar pela arbitragem, em 2005. Além de árbitro, Vinícius trabalha como treinador em uma escolinha de futebol da cidade, que envolve garotos de 5 a 17 anos de idade. No estadual deste ano, ele foi personagem da polêmica partida entre Penapolense e Corinthians por não marcar um pênalti para o Timão no jogo que eliminou a equipe do Parque São Jorge do campeonato. O juiz de futebol bateu um papo com nossa reportagem sobre o sucesso de sua carreira, a arbitragem brasileira e a expectativa para a Copa do Mundo.

 

O que o levou a ser juiz de futebol?

 

A ideia surgiu aos 27 anos. Eu estava em um clube da cidade onde sou sócio e fui jogar. Por acaso faltou o árbitro e eu não estava com muita vontade de jogar naquele dia. Então, disse para me passarem o apito, e isso veio até hoje. Surgiu nessa brincadeira, por falta de árbitro. Acabou o jogo e todo mundo elogiou, dizendo que eu apitava muito melhor que o árbitro que apitava aos finais de semana para eles.

 

Você chegou a ser jogador profissional também?

 

Tive uma passagem boa no futebol. Joguei em clubes bons, mas como árbitro eu consegui chegar mais longe do que como um jogador. Tive 12 anos de carreira profissional como jogador. Comecei com 16 anos na Esportiva de Guaratinguetá, rodei por alguns clubes do estado de São Paulo, um clube do Rio de Janeiro e encerrei a minha carreira aqui no Guaratinguetá.


E como foi o início da sua carreira na arbitragem?

 

O primeiro jogo foi esse do clube. Depois, comecei em outros na cidade com a criançada. Fui convidado pela prefeitura porque faltava árbitro em 2002. Apitei a Copa Criançada, porque é mais fácil. Você apita e eles respeitam, eles têm educação, até melhor do que o profissional. A prefeitura me mandava para os jogos em Iguape, e foi lá onde conheci alguns membros da Federação Paulista de Futebol. Eles que falaram que eu levava jeito e me disseram para eu fazer um curso na federação. Então, disse que o meu sonho era ser jogador e que estava lá apenas para ganhar o dinheiro, pois estava de férias do meu serviço, que era atleta profissional. Eu jogava no Guaratinguetá, em 2003. Queria continuar a ser jogador e buscar meu espaço. Mas em 2004 ligaram novamente. Então, me deu uma balançada. Eu já estava com 27 anos e teria que decidir. Para jogar em time grande era muito difícil. Então, fiquei pensando e foi quando decidi fazer o curso de arbitragem. Nessa época eu ainda jogava. No final do ano tive que fazer uma escolha: jogar ou apitar. Aí coloquei na balança e vi que poderia apitar até 45 anos, e jogar até 35, ou até os 40. Então, voltei para a faculdade, terminei a faculdade e resolvi encarar a arbitragem.

 

Você iniciou a carreira como árbitro profissional em que ano?

 

Iniciei em 2005, apitando jogos sub11,13,15 e 17. Então, em 2006 eu consegui apitar a segunda divisão do Campeonato Paulista. Em 2007 fui até a série A2 do Paulista e em 2012 estreei na Série A1, na qual estou até hoje.

 

O Campeonato Paulista de 2014 foi a principal competição que você apitou?

 

Sem dúvida! Considero bastante também o primeiro ano,em 2002. Quando você chega com a pressão enorme, a aposta da federação é muito grande e fica aquela pressão em cima da gente. Então, fiz bons jogos. Minha estréia no Campeonato Paulista, por exemplo, foi Comercial e Linense, jogo que teve quatro pênaltis e três cartões vermelhos… Então, logo de estreia você já pega um jogo assim? Eu destaco como o jogo mais importante e o mais difícil que eu tive durante esses três anos na primeira divisão. Tive também o jogo do Palmeiras e Botafogo-SP, que passou nas Tvs Globo e Band e teve um bom destaque, mas nada se compara com 2014. Foram três jogos no SportTv, jogos na Globo e Band, seis jogos de time grande…Então, estou feliz da vida. Esse ano foi o ano que Deus me abençoou de verdade. Fui destacado na federação como o quarto árbitro do profissional paulista em destaque. Foram só três na minha frente, de 26 árbitros que apitam o Campeonato Paulista.

 

Além de ser árbitro você também faz parte de um trabalho envolvendo crianças em Guaratinguetá, que é uma escolinha de futebol. Como funciona?

 

É no campo da Feg (Faculdade de Engenharia de Guaratinguetá), na segunda, terça e quinta-feira. As idades são de 5 a 17 anos. É um trabalho que a gente procura fazer aqui, porque vê que tem pouco apoio ao esporte na cidade. O objetivo é tirar a criançada da rua e tentar encaminhar para a vida. Também pelo meu conhecimento no mundo do futebol com times grandes,eles sabem que eu tenho esse trabalho em Guaratinguetá. Então, sempre quando vão começar as categorias de base eles me ligam para eu arrumar um garoto de 15 anos, um de 13 anos, para disputar o Campeonato Paulista. Recebo ligações da equipe do Corinthians, São Paulo, Palmeiras, para quem sabe conseguir arrancar uma jóia daqui e colocar em um time grande para se destacar.

 

Como é a valorização da arbitragem em geral no país do futebol?

 

Está conseguindo mudar aos poucos. A gente está um pouco atrás da Europa ainda, se for comparar a cultura que eles têm, respeito, dedicação… Mas a Federação Paulista é uma federação que está se igualando ao mundo inteiro. O que eles fazem com a gente antes dos jogos, que é o teste físico, prova escrita… A gente tem psicólogo e concentração antes dos jogos. Então, já posso dizer que eu estou em uma das melhores federações do mundo.

 

No estado de São Paulo, qual o maior pagamento a um juíz, por exemplo?

 

A responsabilidade do árbitro é gigantesca perto do espetáculo que se envolve. Você pega televisões de alto nível, jogadores do melhor patamar que existe, com salários de R$ 500 mil, e a gente não tem salário. A gente ganha por jogo. Não gosto de revelar valores porque a gente sabe que muitas pessoas ficam de olho. Prefiro não entrar em detalhes, e a federação pede para que a gente não revele. Mas se for ver a responsabilidade de um jogo igual apitei, como Corinthians e Penapolense, para o mundo inteiro, valendo vaga para o Corinthians, e você vê a pressão no dia seguinte da televisão, me malhando, criticando, você fala: ”O cara que jogou ganha R$ 1 milhão e eu ganho isso aqui”. Se eu contar para você depois, em off, você vai dizer que não é possível que eu ganhe só isso para apitar um jogo com uma importância dessa. Mas é possível sim!

 

Você participou de um lance polêmico no Paulistão deste ano ao não marcar um pênalti para o Corinthians naquele jogo contra o Penapolense, na última partida da primeira fase. Como você viu aquele lance e como repercutiu pra você?

 

A gente está tão focado que perde por um descuido e acaba perdendo um lance ou outro, que acaba definindo a partida. E realmente aconteceu comigo no jogo Penapolense e Corinthians. Eu estava super tranquilo, todo mundo me respeitando e em um lance, num piscar de olho, achei que não foi pênalti e disse: “não vou apitar!”, e decidi que não ia apitar. Na hora você não pode ver replay. Eu não posso ligar em casa e perguntar para minha mãe se foi pênalti. Tem que decidir na hora. Então, na hora achei que não foi e não apitei. Segui o jogo. Tanto que os jogadores também não reclamaram e não fizeram nenhuma pressão em mim, porque quando é gritante, os jogadores fazem aquela pressão em cima da gente, e não aconteceu isso no jogo. Tanto que quando acabou, o Mano Menezes veio e me deu parabéns e os jogadores me mandaram camisa no vestiário me dando parabéns. Então, sai com a cabeça tranquila. Mas quando chega o dia seguinte, você liga a televisão e vê: ”pênalti claro”. Analisei a imagem e vi que realmente errei no jogo.

 

Você vai apitar alguma outra competição em 2014?

 

A gente apita a segunda divisão do Campeonato Paulista, que vai até dezembro. Tem a Copa da Federação, que começa logo após a Copa do Mundo. Então, jogo pra gente é o que não falta. Isso vai até dezembro. Chegam as finais das categorias sub 20, 17 e 15. Eles descem os árbitros principais que tem na federação para fazer as finais, que são jogos de maior rivalidade. O Campeonato Brasileiro passei da idade para poder entrar no quadro da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), que é de até 35 anos. Você tem que entrar antes dos 35 e eu já tenho 35. Apenas se eles mudarem o regulamento. Para eu apitar qualquer outro campeonato: brasileiro tem que ser CBF ou escudo Fifa. O meu é só da Federação Paulista, então eu só posso apitar campeonato da Federação Paulista de Futebol.

 

Qual sua expectativa em relação à arbitragem para a Copa do Mundo?

 

É uma boa expectativa. Os árbitros chegam no mês que vem aqui e já começam um trabalho forte e rigoroso que a Fifa faz. Então, acredito que em questão de arbitragem tem tudo para ser a melhor Copa do Mundo.

 

E o que você esperada seleção brasileira na copa?

 

Acredito bastante. O Felipão é um homem sério e o Parreira um homem que a gente dispensa comentários. Eles já têm Copa do Mundo nas costas e títulos nos clubes que passaram. Acho que não tinham pessoas melhores para comandar a seleção brasileira, e vem dando resultado, ganhando tudo. Então, acredito que se a gente conseguir botar um pouquinho de corda no Fred, que é o artilheiro nosso, para chegar bem na Copa do Mundo, acredito que o Brasil ganha sim, ainda mais com o apoio da torcida.

 

Considerações finais

 

Queria agradecer a todas as pessoas que acreditaram no meu trabalho quando comecei na arbitragem e que até hoje me encontram na rua e falam: “eu disse que você tinha jeito, que você ia chegar!”. São essas pessoas que dão força para eu acreditar em mim mesmo. Se elas acreditam por que eu não vou acreditar? O apoio da minha família é o melhor que já pude ter. Quando tive que tomar a decisão entre continuar jogando ou virar árbitro todos foram em um só acordo: “Vira árbitro que você tem tudo e todo mundo está elogiando”. Então, queria dar um abraço em todos e não vou dizer nomes porque você acaba esquecendo de um ou outro. Mas as pessoas que lerem vão saber de quem estou falando. Um beijo e um abraço a todos e fiquem com Deus!

 

Fonte: Opinião Vale

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