10/01/2015 - Entrevistas

Agora na Fifa, Raphael Claus mostra lado ‘humano’ da arbitragem no futebol


Por: Marçal - assessoria de comunicação


Metas a curto prazo e regularidade. A receita de Raphael Claus para alcançar o quadro de árbitros da Fifa parece simples, porém, segundo ele, não funciona se não estiver ligada a valores como dedicação e foco.

Depois de 12 anos como juiz de futebol, o barbarense foi integrado à maior entidade da modalidade neste ano, mas os objetivos dele não chegaram ao fim — a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) divulgou a lista no último dia 31 de outubro.

De cargo novo, Claus conversou na última quinta-feira (08/01) com a reportagem do Jornal de Piracicaba e revelou os seus próximos alvos na carreira: jogos internacionais e Copa do Mundo.

Em 2014, o árbitro apitou partidas importantes, como o segundo jogo da final do Paulistão entre Santos e Ituano e o confronto da entrega da taça ao campeão brasileiro Cruzeiro, diante do Fluminense na última rodada do torneio.

Entretanto, o barbarense também ficou marcado pela polêmica com o corintiano Petros. O meio-campista atingiu as costas de Claus no duelo contra o Santos, pelo Brasileirão, recebeu punição do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) e o caso ganhou repercussão.

Para 2015, Claus espera ainda mais oportunidades e, portanto, já voltou aos treinos para se apresentar em forma na cidade de Itu, onde os árbitros do Estado de São Paulo iniciam a pré-temporada no dia 25 e ficam concentrados durante sete dias, até o início do Paulistão-15.

O quanto integrar o quadro de árbitros da Fifa representa para você e para a sua carreira?
Chegar ao quadro da Fifa, se fosse para um jogador, seria a Copa do Mundo. Para nós, é o passo mais importante da carreira. Não tenho mais para aonde subir. Agora, crio novos objetivos, como participar de jogos internacionais, de uma Copa do Mundo. Gosto muito de traçar metas curtas. Na minha carreira, sempre fiz isso. Chegou o momento de traçar objetivos em termo de campeonatos. É um sonho realizado. A satisfação da família que acompanha todos os nossos momentos... É um momento indescritível, a ficha nem caiu ainda. Conforme o ano vai passando, vou desenhando melhor o que espero.

Para você, como foi 2014, no qual você também apitou a final do Paulistão? Qual foi a contribuição do último ano para a sua conquista? 
(O acesso ao quadro da Fifa) já vinha um pouco encaminhado. Pelas escalas, pelos jogos que eu vinha fazendo, eu já tinha uma projeção assim. Mas é claro que a regularidade faz muita diferença, fazer a final do Paulistão... Mas só fazer a final não quer dizer nada. O importante é fazer e ir bem. É isso que vai te credenciando. E 2014 foi fundamental. Temos o sorteio aqui em São Paulo, que é complicado para o árbitro. Eu participei do sorteio de seis finais de Paulistão já. Perdi nas duas de 2012, nas duas de 2013 e na primeira de 2014. A minha bolinha foi cair na segunda final. Então, temos que ter um pouco de sorte também. Espero que um dia esse sorteio acabe, porque, para a arbitragem, não é bacana. Mas fazer a final do Paulistão e o jogo da entrega da taça entre Cruzeiro e Fluminense é fundamental e credencia um pouco mais.

Como foi o processo até você se tornar árbitro e depois chegar a esse patamar? 
Fiz o curso em 2002. A princípio, eu não me via muito como árbitro. Até porque sempre joguei futebol, então não tinha essa visão. Entrei na arbitragem por causa do Vinicius Furlan, que é árbitro da CBF. Torço muito para que ele pegue a minha vaga de aspirante, que está livre. Jogamos futebol desde a categoria de base, desde os nove anos de idade. A minha família é muito próxima a dele. Ele fez o curso um ano antes e falou para eu fazer também. Fui meio rígido, não queria fazer, até o dia que ele me convenceu a fazer a prova e acabei sendo aprovado. A partir daí, comecei a trabalhar em um meio que gosto, o meio do futebol, que eu vivi. Meu pai e meu irmão foram jogadores de futebol, eu também joguei na base até os 20 anos de idade. Comecei a receber elogios das pessoas que estão no meio, das equipes após o término das partidas, e fui criando uma expectativa maior. Mas o caminho é árduo, não é fácil. Fiquei oito anos para chegar à Série A1 do Paulistão, demorei dez anos para chegar à Série A do Brasileirão. Então, se eu tivesse desistido no caminho, não teria realizado os meus sonhos. Como falei anteriormente, gosto de traçar metas curtas. Eu tinha metas de fazer o campeonato sub-20, depois fazer a Segunda Divisão (do Paulistão), Série A3, A2, A1... Graças a Deus, consegui ano a ano atingir, mesmo em uma velocidade menor, as metas que eu tinha em mente.


Como você se define dentro de campo? Qual é o seu comportamento durante uma partida? 
O árbitro tem que se adaptar à situação. Acho que o fato de eu ter jogado me traz uma boa experiência dentro de campo. Não adianta só aplicar a regra. O árbitro tem que saber que jogo ele está apitando, o contexto da partida. Há jogos que não exigem tanto do árbitro. Não adianta querer pilhar os jogadores, tem que administrar a partida. Existem jogos que exigem uma presença mais forte, uma imposição maior do árbitro. Eu tenho o “feeling” de definir rápido o que o jogo está exigindo ou não.

Quais são as principais dificuldades da sua profissão? 
A maior dificuldade, principalmente no início da carreira, é conciliar o trabalho. Porque hoje a arbitragem não é profissionalizada, então a maioria dos árbitros tem uma segunda função. Em muito tempo da carreira, essa segunda função é a primeira. A arbitragem chega a ser a segunda quando se faz categorias de base. Então, vai muito do rendimento salarial. Hoje, a arbitragem passou a ser a minha primeira. Ainda tenho uma assessoria de corrida em Santa Bárbara d’Oeste. Tenho professores que trabalham para mim lá e dão muito bem conta do recado, mas não são todos os árbitros que têm esse privilégio. Às vezes, são funcionários, têm dificuldade de sair do trabalho para fazer os jogos e ir para treinamento. Esse tipo de coisa é a maior dificuldade que o árbitro encontra.

E benefícios? 
A arbitragem mudou a minha vida e a da minha família. Consigo dar uma vida melhor para os meus pais. Atingir os seus objetivos, o prazer de conquistar o seu espaço e ser reconhecido... Entrar no quadro da Fifa não é só o fato de entrar, é também o fato de ter o reconhecimento dos companheiros de profissão, que você merece estar lá. Isso é o melhor presente de todos.

Como você lida com a pressão nos jogos em relação à torcida, comissão técnica e jogadores
Hoje, melhorou muito. Escuto falar que, em épocas antigas, tinha uma dificuldade muito grande com relação à segurança dos árbitros. Hoje, não temos contato nenhum com torcedor. Então, esse aspecto extracampo é bem tranquilo. Com relação a dentro de campo, comissão técnica e clima dos jogadores, é importante o árbitro estudar as partidas, analisar exatamente o que o jogo representa para as duas equipes. Acredito que, em termos de concentração, isso é fundamental para o árbitro. Não adianta encarar a partida como uma qualquer. Cada partida tem a sua particularidade e importância. O árbitro que se prepara muito bem para os jogos é o que será bem sucedido no final.

E, depois de um lance duvidoso, como você faz para manter o foco? 
Dentro de campo, não tenho dúvida. Por mais que duvidoso que seja o lance em termos de tratamento da mídia, para mim, dentro de campo, é um só. Não tenho dúvida nenhuma do que eu marco e isso vai até o final do jogo. Quando termina a partida, vemos (o lance). Inevitavelmente, acabamos acompanhando os lances pela televisão. Se teve um equívoco ou não, a partida já está encerrada. O árbitro que comete um erro dentro de campo, se deixar aquilo atrapalhá-lo no restante da partida, cometerá muitos outros erros para compensar o primeiro. Aí a arbitragem será praticamente jogada no lixo. Então prefiro, se cometi um equívoco, não saber dele, ficar sabendo após o término só. Estamos dentro do campo para fazer o nosso melhor. Infelizmente, há muitas câmeras, que às vezes mostram o que não vemos. Costumo falar para quem trabalha comigo, assistentes e adicionais: “Se viu, pode marcar, porque alguma câmera vai pegar”. Chego ao vestiário esgotado, dou o meu máximo dentro de campo. Se passar alguma coisa, é porque o ser humano é falível, mas não por falta de vontade ou dedicação.

Fora de campo, já houve problema com torcida após algum erro? 
Nunca tive problema. Tenho 12 anos de carreira, devo ter uns 15 clássicos entre os grandes de São Paulo no currículo e nunca cometi um erro marcante, que decidiu um jogo. Na minha cidade, o tratamento da população é muito bom, fantástico. Sinto que eles torcem muito por mim, porque represento a cidade dentro de um campeonato estadual ou brasileiro. Então, é uma situação que até hoje não vivenciei.

Qual foi o impacto do caso do Petros na sua carreira? 
Teve nenhum, foi bem tranquilo. Foi um jogo até em que me lesionei. Tive uma contusão aos cinco minutos de jogo. Então, após o término da partida, a CBF me encaminhou a uma clínica em São Paulo para o tratamento e eu tinha que fazer o teste da Fifa. O meu foco era o teste. Quando ficou borbulhando isso na mídia, eu estava focado no meu treinamento e na minha recuperação. Procurei falar com ninguém. Fiz o que eu tinha que fazer extracampo, que foi o adendo (no qual Claus relatou que o empurrão de Petros foi intencional). Fui instruído pelo advogado da Anaf (Associação Nacional dos Árbitros de Futebol). Coloquei uma pedra ali, a polêmica ficou borbulhando por um tempo. Mas, em termos de afetar a minha carreira e vida, teve nada.

O que você costuma fazer fora de campo? 
Hoje, mudou muito a minha vida. A exigência é muito grande em cima de nós, árbitros. Não só na questão física, mas também sobre a nossa imagem. Então, hoje a minha vida social é bem restrita. Vivencio muito os encontros familiares. Por exemplo, no final do ano, passei Natal e Ano Novo com a minha família, ou em casa ou na chácara. A minha família é muito unida. Mas sair para barzinho e balada, para mim, não existe mais. E o treinamento físico exige demais. Temos que nos preparar física e mentalmente, estudar. Voltei a fazer aula de inglês e espanhol, porque é uma exigência da Fifa também. Além de me preparar fisicamente, tenho que fazer pilates e algumas atividades para prevenir algumas lesões. Então, na verdade, não tenho muito mais tempo. Mas sou muito de família, gosto de ficar com os meus pais, curtir os meus primos. A galera toda junta é fundamental para dar uma carga positiva para o ano todo. Porque, quando começa os campeonatos, fico sempre fora nos fins de semana, quando acontecem os encontros familiares. Então, no tempo que tenho livre, procuro ficar junto com eles.

Como estão as preparações para a temporada de 2015 e quais são os seus objetivos para este ano? 
No dia 25, já vamos para Itu, ao “resort” onde ficamos concentrados para a pré-temporada do Paulistão. A princípio, quero fazer um bom Paulistão e também começa a Libertadores. Vou torcer para fazer um jogo ou outro, ter uma oportunidade de mostrar o meu trabalho pela Conmebol. Porque muda-se o meu status, vou para a Conmebol e Fifa agora. É uma outra comissão, um outro comando que tenho que conquistar com o mesmo trabalho que fiz no Brasileirão e no Paulistão. Espero fazer um ano de muitos jogos e acertos, é isso dita a nossa carreira dentro de campo.

Qual é o ritmo de treino dos árbitros na pré-temporada? 
Ficamos uma semana em Itu. Então, fisicamente, ganharemos pouca coisa. É por isso que o árbitro tem que ter foco pessoal. Eu já voltei aos treinos para chegar à pré-temporada já bem fisicamente, não para deixar para ficar bem lá. Mas a pré-temporada é mais voltada para o que a comissão espera para o campeonato, o que eles esperam dos árbitros, o critério a ser adotado durante a competição, além de focar nas equipes, quem os times contrataram, os jogadores novos... Nós que fizemos o Brasileirão temos algumas informações sobre jogadores que pela primeira vez participarão do Paulistão. Então, passamos as informações para os árbitros que apitam apenas o Paulistão. O foco é total no Paulistão e tudo o que englobará para sairmos preparados para os desafios.

Você tem alguma consideração final?
Muita gente acha que foi fácil chegar. O pessoal nos vê fazendo jogo na televisão e acha que tudo caiu do céu, mas nada acontece por acaso. Então, um recado que dou é que, se você tem sonhos e objetivos, dedique-se e corra atrás. Às vezes, você pode dar muitas voltas para chegar até eles, mas, se for dedicado, ter foco e fé em Deus, o que é fundamental em momentos de dificuldade, vá com força. Pode demorar um ou dois anos, mas eles serão atingidos.

Por: Rodrigo Alonso - Jornal de Piracicaba

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